Simple Minds comemora 30 anos de carreira, mas continua com os pés na década de 80 em show em SP

MARIANA TRAMONTINA
Da Redação
  • O cantor Jim Kerr em show do Simple Minds em São Paulo (17/08/2010)

A descendência oitentista do Simple Minds está reabilitada. Apesar de ter atravessado as últimas três décadas lançando rotineiramente discos de inéditas, o vocalista Jim Kerr e o guitarrista Charlie Burchill, únicos remanescentes da formação original, serão lembrados mesmo é pelo que fizeram lá atrás. Pelo menos para as quase 3.000 pessoas que, aparentemente, cruzaram os anos lado a lado da banda e preencheram nesta terça-feira (17) gelada em São Paulo metade da casa de shows Via Funchal.

Acompanhados de Mel Gaynor (bateria), Eddie Duffy (baixo) e Andy Gillespie (teclado), além de uma cantora, os dois músicos voltaram ao país em comemoração aos 30 anos de carreira e impulsionados pelo trabalho mais recente, "Graffiti Soul", de 2009. Essa terceira passagem do Simple Minds ao Brasil era para ter acontecido em setembro do ano passado, ainda no auge do lançamento de "Graffiti Soul", mas uma quebra de acordo entre produtores e banda fez os escoceses cancelarem a viagem.

E, mesmo com o adiamento de um ano, o tempo parece ter sido insuficiente para o público digerir as novidades. No show, faixas como "This Is It", "Moscow Underground" e o single "Rockets", todas de "Graffiti Soul", foram recebidas sem muito entusiasmo, assim como "Stars Will Lead The Way", que no palco perde um pouco da cópia do U2 que a banda continua imprimindo em seus discos há pelo menos duas décadas.

Ao vivo, o Simple Minds não incita fortes emoções. A banda segue num ritmo cadenciado que pouco se arrisca a ser rompido. E o público não reclama, aplaude, acompanha quase com indiferença. Até que, uma hora depois do início do show, a plateia inflama ao ouvir em dobradinha os dois motivos que catapultaram os escoceses ao mundo: "Don't You (Forget About Me)" e "Alive & Kicking", ambas de 1985.

Não que o Simple Minds tenha lançado material descartável além destes hits instantâneos. Nos 16 álbuns da discografia, há boas inspirações que foram garimpadas no show como "Sanctify Yourself" (1985), que abriu a apresentação, "Waterfront" (1984), "Someone, Somewhere In Summertime" (1982) e "Once Upon a Time" (1985). A demagoga "Mandela Day", de 1989, vai bem com os fãs.

Apesar da extensa discografia, a banda parece também contribuir para que os fãs não esqueçam das décadas passadas. No show de 1h50 de duração, os anos de 1990 apareceram em "See the Lights" e "Hypnotised". Não fosse por "Graffiti Soul", os anos 2000 seriam representados apenas por "One Step Closer" (2002) e duas releituras de 2001 que ficaram para o bis: "Neon Lights", do Kraftwerk, e uma versão estendida de "Gloria", da banda Them de Van Morrison.

O Simple Minds é uma banda correta e carismática no palco, dona de um repertório regular que nem chega a soar datado de determinada época, mas ainda assim o grupo parece resvalar-se numa fórmula que não o permite se sobressair e ser mais do que poderia ser. Talvez o que falte ao Simple Minds seja um palco que gire em 360º e um "The Joshua Tree" na discografia.