BOB DYLAN "Together Through Life"
 Em seu 33º álbum de estúdio, Bob Dylan fecha com chave de ouro a trilogia de álbuns que fez desta década a mais constante de sua carreira desde os anos 60.

Se em "Love and Theft" (2001), Dylan recuperou a energia criativa dos tempos áureos e em "Modern Times" (2006), aproveitou o impulso para explorar mais a fundo suas origens no blues e na música folk dos velhos tempos, o novo álbum segue uma fórmula semelhante para criar algo ao mesmo tempo nostálgico e surpreendente.

A reinvenção de gêneros é uma constante na carreira de Bob Dylan. No início dos anos 60, injetou atitude rock and roll à música folk acústica, para em seguida inserir complexidade poética na linguagem roqueira e, quando ninguém esperava, revisitou e devolveu a dignidade à música country no final da década.

Desta vez escolhido foi o rhythm & blues dançante dos anos 50. Mais da metade das faixas é diretamente reminiscente do que artistas como Jimmy Reed, Ike Turner e Howlin' Wolf aprontavam no eixo Memphis-Chicago pouco antes de ser contrabandeado pelos brancos e transformado em rock.

Canções como "Shake Shake Mama" e "Jolene" estão entre o que Dylan fez de mais divertido e jovial desde "Highway 61 Revisited" em 1965, enquanto "Beyond Here Lies Nothin'" reconstrói o ritmo sensual do clássico do blues "All This Love I Miss Lovin'" de Otis Rush.

Com ar nostálgico presente até mesmo na gravação, cuja acústica e calor remetem à sonoridade produzida em estúdios arcaicos com os dos selos Sun e Chess, é nos arranjos que a inovação aparece, ainda que de maneira sutil e não invasiva.

Paralelamente ao estilo clássico e elegante do guitarrista Mike Campbell e à espontaneidade da banda de apoio, com quem Dylan tem feito suas turnês recentes, as canções trazem o apoio constante de outros instrumentos menos usuais para o formato.

Bandolins, violinos e, particularmente o acordeão de David Hidalgo, veterano da banda chicana de roots rock Los Lobos, fazem o que poderia ser somente um divertido blues rock de bar se transformar num ensopado onde se fundem outras formas de música do sul dos EUA, particularmente a música cajun dos pântanos da Louisiana.

A veia sensível de Bob Dylan também está presente na parte menos agitada do álbum. Em baladas como "Life is Hard", a voz áspera se combina ao acompanhamento delicado dos bandolins e da guitarra havaiana para criar climas quase cinematográficos.

Mais do que uma vitória entre tantas outras na carreira de Dylan o sucesso de "Together Through Life", que estreou em primeiro lugar nos EUA e Inglaterra, pode ser visto pelos otimistas como uma reação sensível, sutil e elegante aos caminhos pouco auspiciosos da música pop atual.

Se a crise de meia idade dos anos 80 e 90 fizeram Bob Dylan pisar na bola, a nostalgia trazida pela velhice parece estar lhe fazendo bem. (PEDRO CARVALHO)