Depois de anos e várias mudanças no projeto, "Besouro Verde" encara o julgamento do público nos EUA

ANA MARIA BAHIANA
Especial para o UOL, de Los Angeles

“É verdade que este personagem existe há muito tempo, mas o problema é que ele não parece durar muito. Ele tem uma certa tendência para ser cancelado”, diz Michel Gondry num inglês com forte sotaque francês, entre goles de chá com mel para “acalmar a garganta”. Com bom motivo: Gondry ("O Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças", "Rebobine Por Favor") está enclausurado num hotel de luxo em Beverly Hills, falando sem parar, desde as primeiras horas da manhã, sobre "Besouro Verde", o filme que ele dirigiu e que estreia nos EUA nesta sexta (14) e  em 18 de fevereiro no Brasil.

E Gondry está certo - no congestionado panteão dos super-heróis, o Besouro Verde ocupa um lugar muito estranho, com uma trajetória bastante peculiar. Para começar, ele não é nem um besouro – a tradução correta seria Vespa ou Marimbondo Verde, o que explica o logotipo  e as várias alusões à “mordida” do herói - e, neste filme, até mesmo às suas origens.

Para continuar, ele não é um super herói: é um sujeito  comum numa roupa do dia-a-dia, desprovida de capa ou collants, com um carro Chrysler Imperial dos anos 1960 que nem ele mesmo dirige – essa tarefa cabe a seu motorista asiático, o super cool Kato,  um que sabe artes marciais e, via de regra, é quem realmente sai no braço com os bandidos.

E para culminar, como Gondry lembra, sua única encarnação razoavelmente bem sucedida foi durante a era de ouro do rádio, nos anos 1930, quando o Besouro Verde era um dos heróis de seriados radiofônicos norte-americanos, ao lado do Sombra e de outra criação dos rádio-dramaturgos George Trendle e Fran Striker, o Lone Ranger, conhecido no Brasil como o Zorro e Cavaleiro Solitário.  

Nos anos 1940, o Besouro ganhou dois pacotes de seriados cinematográficos, com orçamentos e ambições para o circuito B. Para evitar o sentimento anti-nipônico da época da 2ª Guerra Mundial, Kato transformou-se de japonês em filipino, embora representado por um ator chinês. Duas décadas depois, o Besouro ganhou uma versão para TV, de vida curtíssima – uma única temporada. “O importante ali é que Bruce Lee era Kato”, Gondry recorda. “Mas só muito tempo depois foi possível avaliar esse fator.”

Em 1992, a Universal, que detinha os direiros do personagem desde os seriados dos anos 40, começou a longa jornada para trazer o herói de volta às telas. Em 1997,quando Gondry foi contratado pela primeira vez para dirigir a adaptação, Mark Wahlberg seria o herói, e Jason Scott Lee viveria Kato. Gondry e o roteirista Eric Neumeier imaginaram uma saga super sombria e vagamente irônica, com um vilão que comia corações humanos - e era derrotado quando engolia um marca-passo e o Besouro o liquidava com um micro-ondas.

Nos mais de dez anos que se seguiram o projeto mudou de estudio, diretor, roteirista e elenco tantas vezes que dá para perder a conta. Quando Gondry voltou a ser contactado, havia uma novidade importante no projeto: Seth Rogen. "Foi com ele que a história tomou um rumo que voltou a me interessar.”

“Você pode olhar por qualquer lado que vai ver a mesma coisa – o Besouro Verde é um cara que tem grana e uma vontade enorme de fazer alguma coisa pra acabar com o tédio”, diz Rogen. “Mas ele é muito menos interessante e charmoso que Kato. Kato é bonitão, atlético e capaz de encarar brigas e criar gadgets. A relação entre eles é a coisa mais interessante.”

TRAILER DO FILME ''BESOURO VERDE''


 

Aos 28 anos, o ator-roteirista que se tornou sinônimo de um tipo de comédia jovem sobre perdedores crônicos mas adoráveis – "Superbad', "Ligeiramente Grávidos", "Segurando as Pontas" – reinventou o Besouro à sua imagem e semelhança - como um garotão de poucos dotes físicos, perdido numa vida de muito dinheiro e zero responsabilidade, que resolve virar herói para se colocar à altura do pai, o dono de um grande jornal que morre inesperadamente.

Sobretudo, Rogen mudou o foco da história do combate ao crime – em que os  vilões são Christoph Waltz e, numa breve ponta, James Franco – para a relação entre o Besouro e Kato. “Kato era apenas um empregado nas versões anteriores, e isso seria inadmissível hoje”, ele diz. “Sou um nerd fá de quadrinhos – na minha garagem não tem um carro todo incrementado, tem caixas de revistas. E sempre me intrigou a relação entre o herói e o assistente. Especialmente no caso do Besouro Verde, em que Kato era tão claramente superior a ele, em tudo.”

Gondry divertiu-se aplicando sua estética ao que chamou de “visão Kato” – a capacidade do herói (vivido pelo megapopstar de Taiwan, Jay Chou) de decupar as situações perigosas - e conseguiu convencer o estúdio (a Columbia, agora) a pagar os 30 milhões a mais no orçamento (que já era de 90 milhões) para transformar o filme em 3D. “Quando faço um filme, principalmente um filme como este, que custou tanto, eu me preocupo tanto em agradar a mim mesmo quanto agradar o público”, diz Gondry, resumindo sua longa jornada com o Besouro Verde. “Espero que tenha conseguido.”