A Psicopatia da Imprensa

 ARTIGO EXTRAIDO DO SITE:http://www.hottopos.com.br/videtur11/imprensa.htm, por ser de suma importância social eu publiquei no visão real.

L. F. Barros
lfbarros@fenix.org.br

(L. F. Barros é educador, escritor, presidente do Projeto Fênix - Associação Nacional Pró Saúde Mental e Coordenador Nacional dos Psicóticos Anônimos. É colaborador do Jornal da Tarde, onde publica coluna mensal sobre Saúde Mental na pág. 2, e Doutorando em Filosofia da Educação pela USP).

 

"Não há fatos, só há interpretações."
NIETZCHE

 

I - Velho Tema, Eterna Tragédia

 

Tendo passado cerca de 20 dias sem ler jornais, ouvir rádio ou assistir à TV, retornando ao trabalho (meados de Novembro de 99), recebi simultaneamente as informações do carnaval que agora se faz em torno do crime do Morumbi Shopping e o convite para escrever artigo sobre o assunto.

Não há pesquisas realizadas no Brasil a respeito da associação entre criminalidade e doença mental, entretanto estudos internacionais indicam que os portadores de doenças mentais não cometem mais crimes do que a população em geral, conforme demonstram os dados e a análise apresentados por Gattaz ("Doença Mental e Violência: Fato ou Ficção", editorial na Revista de Psiquiatria Clinica Numero 25, vol. 4, 1998. http://www.hcnet.usp.br/ipq/revista/index.html).

Nada me cabe comentar a respeito deste crime específico e deste criminoso, não só porque fui poupado de qualquer informação direta a respeito do caso, como porque o que eu tinha a comentar sobre este tipo de assunto já comentei em casos anteriores, por ocasião dos crimes do Parque do Estado e da Praia do Cassino.

Mas sei que muitos jornalistas continuam brincando com coisa séria, estampando manchetes a torto e a direito, super-expondo temerariamente uma personalidade doentia, na TV, rádio, jornais e revistas, dando ao crime do Shopping uma dimensão escandalosa e sensacionalista, elevando o protagonista ao estrelato, e isto sim eu gostaria de comentar, repisando velhos pontos em que tenho insistido e apresentando alguns novos.

Desde que acompanho a cobertura jornalística dada a crimes de natureza psicopatológica verifico que há sempre dois agentes em cada crime, ambos merecendo avaliação de sanidade mental e judiciária, ambos devendo ser julgados/examinados por seus atos desatinados. O primeiro deles é a pessoa que cometeu a violência física, o assassino em carne e osso. O segundo suspeito a merecer julgamento em cada caso é uma entidade praticamente intocável, composta por centenas e milhares de outras pessoas, físicas e jurídicas, muitas das quais re-alimentam (oferecendo feed back) a brutal insanidade da sociedade: a imprensa, a mídia.

Em alguns casos, como demonstrarei abaixo, o suspeito número um é a mídia, sendo o assassino em carne e osso apenas instrumento de assassinatos que a irresponsabilidade dos meios de comunicação fomenta. Tanto se discute e comenta o quanto a mídia reproduz e amplia os já intoleráveis níveis de violência de nossa sociedade, em geral, que chega a ser intrigante como poucos se apercebem do papel que desempenha como ampliadora dos crimes de natureza psicopatológica propriamente ditos.

Por ocasião dos crimes do Parque do Estado e da Praia do Cassino, publiquei artigos no Jornal da Tarde e no site Oficina de Informações, respectivamente, que abaixo reproduzirei integralmente, eis que são breves, pois necessito reafirmar os pontos básicos que sempre defendi em relação à questão de como a mídia trata tal natureza de crimes. Além do mais, tratando-se este assunto (o desvario da mídia), eu creio, de quilate a ser avaliado pelo Ministério Público, sirvo-me da republicação destes artigos anteriores para efeito documental, como há de compreender o leitor após verificar, pela leitura, como se catalizou uma psicopatia num indivíduo no Rio Grande do Sul, a partir da reverberação pela mídia de crimes cometidos por outro indivíduo em São Paulo.

Antes de ir adiante em minha análise, transcrevo, portanto, tais trabalhos anteriores, também porque certamente não são de conhecimento de todos os leitores desta Revista, para fundamentar meus argumentos posteriores.

Em 16/01/99, publiquei, no Jornal da Tarde, "Maníacos e Psicopatas" (http://www.jt.com.br/noticias/99/01/16/ar1.htm), artigo em que discorro sobre a desinformação fomentada pela imprensa e os resultados potencialmente danosos do sensacionalismo e da super-exposição desnecessária de personalidades doentias.

 

MANÍACOS E PSICOPATAS

 

Maníacos todos são, em senso vulgar, basta lembrar da canção: "todos têm suas manias/a minha é gostar de você". Em sentido psiquiátrico, maníacos estão (e não são permanentemente) pessoas em fase de mania, quando sujeitas, por exemplo, a exaltação de humor, pensamento acelerado, exacerbada ansiedade e euforia, em meio a hiperatividade mental e física, eventualmente sujeitas inclusive a delírios, alucinações ou outros sintomas característicos.

Quando a mídia batizou de "maníaco do Parque" um psicopata responsável por inúmeros crimes hediondos, mais uma vez contribuiu para a confusão lingüística que fomenta desinformação e reforça preconceitos que atingem milhões de portadores das mais diversas doenças mentais de natureza não agressiva e anti-social.

Trata-se do mesmo tipo de desinformação que Hitchcock promoveu ao intitular uma de suas obras primas de Psicose, quando o nome correto para o filme seria Psicopatia. Hoje, contribuem para a proliferação de preconceitos todos os filmes de serial killers que "diagnosticam" os personagens, assassinos-psicopatas, como sendo esquizofrênicos ou psicóticos.

Isto não quer dizer que esquizofrênicos ou psicóticos não possam cometer crimes. Inúmeros estudos, entretanto, demonstram que os índices de criminalidade entre os portadores de doenças mentais não é maior do que entre a população em geral. Isto significa que esquizofrênicos, psicóticos ou maníacos não cometem mais crimes do que as pessoas mentalmente sãs.

É imprecisa e infeliz, portanto, a utilização da alcunha de "maníaco" para o "psicopata do Parque", eis que se presta à propagação de preconceitos. Erros lingüisticos divulgados com tal amplitude pervertem o significado dos vocábulos ao mesmo tempo que disseminam a confusão conceitual.

Os que cometem tal natureza de crimes - em série e hediondos -, se doentes, são psicopatas e não maníacos. A psicopatia, basta consultar o Aurélio para cientificar-se, constitui-se num "estado mental patológico, caracterizado sobretudo por desvios caracteriológicos, que acarretam comportamentos anti-sociais". A essência desses desvios de caráter dá-se por conta da não assimilação afetiva das normas morais de convivência social, resultando na incapacidade de o indivíduo sentir-se culpado por sua conduta anti-social. O psicopata tem plena condição de entender racionalmente as proibições legais. O que lhe falta é a apreensão do significado afetivo e emocional das trangressões que comete. O que o atrai é a realização obsessiva de suas fantasias macabras, mas o que o mantém em ação é a impunidade e a sensação de poder que lhe confere a convicção de estar acima dos outros homens, da lei e da moral.

É rara a ocorrência de personalidades psicopáticas no nível de gravidade como o desse caso recente. Aliás, esta a razão de tão ampla publicidade quando ocorrem tais casos. O noticiário privilegia o que é fora da rotina, a exceção. A mídia, em geral, não dedica espaço ao esclarecimento de questões relativas à saúde mental, assim o público só toma contato com as exceções que ganham as páginas policiais, embrenhadas de sensacionalismo, perpetuando-se a crendice de que todos os doentes mentais são perigosos.

Pior que tudo, no momento, é a continuidade da veiculação pela mídia de entrevistas, reportagens e fotografias do nefasto e infeliz personagem, mais recentemente nas "edições de fim de ano" e, previsivelmente, já agendadas para a época de seu julgamento. A exposição destacada da personalidade de psicopatas só se justifica antes de sua captura, com o objetivo de prevenir eventuais vítimas e auxiliar o trabalho policial. Após este período, a exposição de tais personagens serve apenas para o cultivo da morbidade entre o público e, o que é mais grave, para fomentar fantasias de notoriedade perversa entre outros possíveis psicopatas.

Reportagens que levianamente continuam propiciando a um criminoso hediondo a mesma notoriedade, ou maior, do que a que é dada a políticos, artistas ou esportistas são potencialmente catalizadoras de novas ondas de crimes patológicos."(grifo atual)

 

 

Transcorridos apenas quatro meses após esta publicação, tive a infelicidade de verificar que não só a tese apresentada ao final do artigo acima transcrito é correta, como também pude observar que a mídia reincidia nos mesmos erros.

Escrevi, então, o artigo "Mídia e Psicopatia" , que publiquei no site Oficina de Informações em 22/05/99, cuja transcrição integral apresento abaixo:

 

MÍDIA E PSICOPATIA

 

Em Maníacos e Psicopatas, artigo publicado no Jornal da Tarde, em 16/01 (http://www.jt.com.br/noticias/99/01/16/ar1.htm), indiquei a irresponsabilidade com que parte da mídia fomentou a notoriedade de um criminoso hediondo, o "psicopata do Parque", inadequadamente alcunhado de "maníaco do Parque". Na época, assim concluí meus comentários:

"Pior que tudo, no momento, é a continuidade da veiculação pela mídia de entrevistas, reportagens e fotografias do nefasto e infeliz personagem, mais recentemente nas 'edições de fim de ano' e previsivelmente já agendadas para a época de seu julgamento. A exposição destacada da personalidade de psicopatas só se justifica antes de sua captura, com o objetivo de prevenir eventuais vítimas e auxiliar o trabalho policial. Após este período, a exposição de tais personagens serve apenas para o cultivo da morbidade entre o público e, o que é mais grave, para fomentar fantasias de notoriedade perversa entre outros possíveis psicopatas. Reportagens que levianamente continuam propiciando a um criminoso hediondo a mesma notoriedade, ou maior, do que a que é dada a políticos, artistas ou esportistas são potencialmente catalizadoras de novas ondas de crimes patológicos."

A exposição atual que já se dá à personalidade de Paulo Sérgio Guimarães da Silva, o psicopata responsável pelos crimes da Praia do Cassino, e suas declarações dando conta de que seu objetivo era o de superar, em número de mortes, o "psicopata do Parque", identificando-se como o "motoboy do Sul", infelizmente indica não apenas que as conclusões de minha análise estavam corretas, como, pior que isso, que parte da mídia continua agindo da mesma maneira deliberadamente inconseqüente.

Inconseqüência que beira as raias da criminalidade dolosa, eis que se comprovou que o sensacionalismo é gerador direto de novas ondas de crimes patológicos, como na Praia do Cassino verificou-se de forma tão contundente e imediata.

Declarações do psicopata da Praia do Cassino: "O Sul precisava de um motoboy"; "Eu sou o motoboy do Sul, quero ser mais famoso do que o motoboy paulista" (Veja/12/05, em matéria que estampa a foto de Paulo Sérgio Guimarães da Silva em reportagem de capa). Já que a mídia repete grotescamente o mesmo erro, permita-me o leitor repetir parte dos comentários de minha análise anterior, já mencionados nesse artigo:

"Reportagens que levianamente continuam propiciando a um criminoso hediondo a mesma notoriedade, ou maior, do que a que é dada a políticos, artistas ou esportistas são potencialmente catalizadoras de novas ondas de crimes patológicos".

Porque há grande risco de que logo teremos, se é que já não tivemos (não assisto à televisão), entrevistas exclusivas em horário nobre, tal como as indecentes matérias produzidas pela Globo e outras TVs com o "psicopata do Parque", só que desta vez com o novo herói macabro que a mídia dedicou-se com afinco a produzir, inconsciente de sua ignorância sobre tais assuntos e conhecendo da psicologia popular apenas o efeito de acréscimo de vendas que o sensacionalismo produz, sem ter noção do quanto do sangue derramado em conseqüência é fruto de sua ignorância da psicopatologia das massas.

De coração compungido escrevo essas linhas, empatizando-me com o sofrimento das vítimas e seus familiares, definitivamente convencido da culpabilidade imperdoável do jornalismo marron. Sinto-me ao meio de uma tragédia interminável, vislumbrando com tristeza o resultado das ações dos grandes e poderosos protagonistas (a poderosa mídia fabricante de psicopatas), como se fizesse parte do coro de uma tragédia grega. De que adianta o coro chamar à consciência os protagonistas, se sua determinação de afrontar os deuses e concretizar o trágico é um destino de que não têm força moral e ética para dele se desvencilhar?

No âmago de todas as tragédias há o dilema entre o exercício do livre arbítrio de forma salvadora ou o direcionamento da ação pela inconsciência individual e coletiva com que a falsa leitura dos desígnios divinos nos ilude, fazendo-nos crer que são os deuses que traçam nossos destinos trágicos.

Os crimes da Praia do Cassino não foram obra do destino. Foram assassinatos em que o criminoso foi não mais do que a arma da irresponsabilidade dolosa de parte da mídia." (grifo atual)

 

II - O sensacionalismo da mídia é um comportamento anti-social reincidente

 

Remeti o último artigo, Mídia e Psicopatia, a inúmeros jornalistas e editores de importantes veículos de comunicação, por meio de e-mails com link do endereço eletrônico e sabem disto dezenas de psiquiatras a quem costumo enviar meus escritos por tal meio.

Vejo, agora, comprovada novamente, dada a igual natureza de cobertura de imprensa que sei estar sendo realizada a respeito do crime do Morumbi Shopping, a antiga tese de que a crítica à imprensa raramente surte efeito, eis que consiste numa espécie de contraponto que alivia o peso de sua consciência coletiva. Melhor explicando: a mídia sistematicamente abre determinados espaços em seus próprios veículos para críticas a ela própria, guardados certos limites, e isto é o que basta para que continue cometendo os mesmos erros. Funciona como se fosse uma auto-flagelação após a qual, redimidos os pecados, no dia seguinte continua o pecador no mesmo caminho vicioso.

Além disto, apontar e comentar os abusos da imprensa é feito sempre mal recebido por jornalistas, fato que explica porque poucos se atrevem a fazê-lo seriamente e até as últimas conseqüências, eis que a mídia se resguarda por detrás de amplo guarda-chuva de álibis apresentados como respostas-prontas para quaisquer situações.

É possível enumerar variados destes álibis pré-fabricados, mas basta-me, para o caso em questão, evocar um dos mais freqüentes, que apresento em destaque para que o leitor possa bem se aperceber da mitologia que cerca a irresponsabilidade jornalística:

 

MITO DA NEUTRALIDADE DO FATO "É facil criticar a imprensa e culpá-la por tudo (é o mesmo que fazem os políticos...), mas a imprensa não cria os fatos, apenas os relata de forma neutra", dizem os jornalistas.

 

Enganam-se duplamente. Em primeiro lugar, não é fácil para ninguém criticar a imprensa, vingativa que ela é em tantos casos, derrubando reputações pessoais com a mesma facilidade que as cria.

Em segundo lugar, e principalmente, como demonstrei acima, a mídia, como qualquer agente social, cria sim todos os dias novos fatos, à medida em que condiciona e estimula comportamentos individuais e coletivos na sociedade. Quando, diariamente, as pessoas reagem a estímulos da mídia e realizam determinadas ações, socialmente consideradas como boas ou más, estão sendo criados fatos em que a participação da mídia é sempre decisiva, dada sua onipresença nas sociedades contemporâneas.

Tanto é verdade que os homens e mulheres da imprensa não têm a mínima dificuldade em admitir sua participação na criação de fatos socialmente considerados bons (pergunte a qualquer jornalista se ele nega a participação decisiva da imprensa no fato "renúncia de Collor frente ao impeachment".) Sem se aperceber da mitologia auto-justificadora que criaram para si mesmos, jornalistas apenas negam sua participação na geração de fatos socialmente inaceitáveis.

Creio que com o caso da Praia do Cassino ficou demonstrado que a imprensa cria também, com o sensacionalismo de suas reportagens insanas, fatos da mais extrema natureza anti-social, tais como crimes psicopatológicos.

Com a repetição dos mesmos rituais macabros no caso do crime do Morombi Shopping, quando, mesmo após a captura do criminoso, seus feitos e sua personalidade, em detalhes, são bombardeados continuamente em todos os lares brasileiros, parece-me claro que a mídia, em uma de suas múltiplas faces, é agente anti-social reincidente.

É evidente que tudo a que me refiro neste artigo não se aplica a todos os jornalistas e a todas as empresas de comunicação. Os órgãos de imprensa e TV que mencionei de forma crítica e específica constituem meras exemplificações. Refiro-me a parte dos jornalistas e amplos setores da mídia como um todo. Não compete a mim realizar pesquisa para a identificação precisa dos órgãos de comunicação que têm efetivamente violado os mínimos compromissos éticos e legais que sua responsabilidade social impõem.

Acredito que assunto de tal natureza deveria ser analisado cuidadosamente na esfera do Ministério Público, à luz da Lei de Imprensa, dos Códigos Civil e Penal e demais dispositivos legais aplicáveis ao caso.